27 de julho de 2015

Introdução ao chá japonês

Pois se há todo um mundo dos chás, há um pequeno mundo dentro desse mundo maior reservado aos chás japoneses. São chás bastante específicos e diferentes dos chás chineses (que são os mais conhecidos e difundidos) e indianos (conhecidos pelos chás pretos). O chá verde é a qualidade principal, quando alguém lá menciona chá (ocha), é a um chá verde que está se referindo. Além dos próprios chás, os utensílios e a cerimônia tradicional de preparo difere dos outros países. Já falei sobre banchá aqui no blog, e quero escrever sobre matcha e os outros, mas antes farei uma introdução ao tema, retirada do livro Tea Sommelier:

"Chá em todas as suas formas é tão difundido na sociedade japonesa que faz parte de quase toda rotina diária: é servido com refeições em restaurantes (bancha, houjicha), é preparado entre amigos ou em reuniões mais refinadas (sencha, gyokuro), e, é claro, sintetiza a filosofia zen durante a cerimônia do chá (matcha).

No Japão, o chá é colhido de duas a quatro vezes por ano. A colheita na primavera é sem dúvida a melhor e a mais solicitada. O chá verde japonês é tradicionalmente cultivado na província de Shizuoka, lar do melhor Sencha, na província de Kyoto, famosa pelo matcha e pelo gyokuro, e nas províncias de Kagoshima e Kyushu, no sul do país. 

O chá verde lá geralmente retém sua cor viva através de um método de vaporização em alta temperatura desenvolvido em Kyoto em 1738. Durante essa fase muito curta do processamento a temperatura alta bloqueia as enzimas das folhas responsáveis pela oxidação, permitindo ao chá preservar sua cor original."



Foto de Fabio Petroni, no livro Tea Sommelier



16 de junho de 2015

Tomando chá em Nova Iorque - Parte 2

Segundo e último post sobre as casas de chá que visitei em Nova Iorque. Agora temos as duas melhores experiências (para ler o primeiro post, clique aqui).

Argo Tea - loja localizada no térreo do Flatiron Building, um dos cartões postais de NY. Muito bonitinha, colorida, com amostras grátis de chás gelados logo na entrada. Opções de drinks de chá com misturas e leite ou só chá infuso. Não tinham menu, você tem que escolher o chá na parede de chás (ou uma das opções de misturas sugeridas na tabela de preços sobre o caixa, tipo MacDonalds) e o que quiser comer direto no balcão - nada muito incrível, alguns bolinhos, cookies, sanduíches prontos e coisas do tipo. Os chás são preparados numa espécie de máquina expressa. Em 2 minutos a menina fez chá pra três clientes. Ia até reclamar porque achei que ela tinha feito com leite, mas não, era só espuma do chá mesmo quase saindo do copo (e ficou bom!). Há sofás, uma mesa coletiva grande e algumas individuais. Servem em copo descartável como as casas do post anterior, mas é um ambiente bem tranquilo pra ficar com seu copo. Ponto negativo: o banheiro é fechado com senha, mas a senha não vem no recibo de compra (como acontece no Shake Shack, por exemplo), você tem que pedir pra uma atendente atrás do balcão enquanto ela atende outras pessoas (treine seu ouvido para números, isto é de real importância em toda a viagem - você acha que é fácil mas quando alguém atrás de uma máquina de chá te diz ou-naine-ou-fortifaive você pode ter dificuldades). Os chás em folha pra levar já estão em pacotes e vidros, é só pegar (tem uma balança, talvez dê pra pedir por peso também, não percebi, mas deve ser meio complicado). Tem wifi do local e o do prédio. E a vizinhança é uma belezinha, dá um belo passeio.





Endereço da loja: 949 Broadway New York

Alice's Tea Cup - uma casa de chá que tem por tema Alice no País das Maravilhas (há o Chapeleiro Maluco no livro, você sabe, que serve chá). É dividida em duas: na parte da frente você pode pedir chá to go (pra levar, em copo descartável), comprar em folhas ou pegar um dos scones ou muffins. Se quiser sentar é preciso pedir uma mesa. Quando fui estava cheio, precisei esperar uns 10 minutos por ali. Lá dentro é meio escuro, rústico, móveis díspares, utensílios que não combinam, bem descolado. Há um menu com os chás e outro para comidinhas e refeições. Pedi um bule de chá com dois scones. O bule é considerável, dava umas 5 xícaras. O chá era ótimo, pedi o sabor errado, mas não me arrependi. Os scones também tinham tamanho interessante, dá pra quem está com fome mesmo; eles vêm com geléia e um creme tipo chantilly. Aqui é serviço de restaurante normal: pede pra atendente na mesa, eles trazem, depois no fim pede a conta e faz o procedimento de pagamento (lá nos EUA tem o negócio de dar gorjeta, e é depois que passam o cartão, não entendo, uma complicação, mas funciona). Logo depois de me servirem o chá veio um funcionário e distribuiu nas mesas umas canecas dessas aí da foto, com água (tap water, água da torneira, lá eles tomam normal); achei divertido. Fica pertinho do Central Park, dá pra ir direto do Strawberry Fields (local no parque em homenagem ao John Lennon) pra lá. Apenas um ponto negativo: não tem wifi - apesar de haver uma conexão com o nome da loja, a atendente disse que eles na verdade não tem -, se você for turista essa pode ser a diferença entre conseguir pesquisar seu próximo destino ou se perder andando rumo a midtown e ter que voltar quatro quadras até achar um wifi gratuito. Mas como experiência de lugar, de atendimento e de gastronomia foi a melhor de todas. São queridos, atenciosos e não querem que você saia de lá correndo.




http://alicesteacup.com/
Endereço da loja: 102 West 73rd Street, at Columbus Avenue, New York


2 de junho de 2015

Tomando chá em Nova Iorque - Parte 1

Férias em New York (também conhecida como Nova Iorque). Onde tomar chá no clima outonal-super-frio de abril? Eu tinha como referência os posts da Márcia, do blog Folha do Chá, que foi para lá em 2012. Anotei as casas de chá em que ela foi e juntei com algumas outras e fiquei com uma lista de 10. Como várias eram fora de mão para ir, acabei indo em quatro somente. Segue um pequeno resumo e review de duas delas. Em breve um outro post com as outras duas. Logo aqui abaixo o meu mapa da cidade com as localizações das casas de chá - como algumas têm mais de uma loja, fiquei com um mapa de 20 opções, incrivelmente distantes de quase todos os outros pontos que eu deveria visitar (que estavam divididos em outros mapas - viajar é planejamento).



David's Tea - Uma das primeiras marcas de chá que eu conheci, inclusive porque os chás deles é que são usados em um vídeo sensacional sobre as diferenças na vida de ser um bebedor de café e de chá (tema de um dos primeiros posts deste blog). A tranquilidade a que o vídeo faz referência em relação ao chá não se encontra na loja. Só vendem chá em copo descartável to go (pra viagem), o que é a tendência, então ok, nem é ruim assim. Mas só o que fazem é colocar um saquinho lá dentro, com água quente; você tem que adivinhar qual é o tempo de infusão e tirar o saquinho. E mesmo que tenha duas mesas e um sofá, é pra você ficar lá com seu copo descartável pronto pra sair, porque parece que estão é muito interessados em ser rápidos e vender utensílios. Os atendentes são simpáticos, mas falam rápido mesmo, não foi fácil lidar com eles com meu inglês fora de prática. Há chás em folha em diversos formatos para comprar (pacotes, latinhas, caixinhas com saquinhos). O chá que tomei lá foi bastante bom, e a variedade abarca vários gostos. Ponto positivo: havia um atendente do lado de fora da loja distribuindo amostras grátis de chá gelado em copinhos, achei simpático; o mesmo atendente depois ficou interessado por eu ser brasileiro e conversou descontraidamente. Ponto negativo: quando quis comprar chá em folha pra levar ele encheu um pacote e me cobrou 30 dólares, sem perguntar quanto eu queria (pergunte antes de comprar como são as medidas!). As latas grandes que contêm os chás têm um compartimento em separado onde é possível ver e cheirar o chá (o que acabei nem fazendo, porque me senti meio corrido).Tem wifi? Tem wifi.

http://www.davidstea.com
Endereço da loja: 275 Bleecker St, New York



Teavana - é uma rede de lojas comprada pelo Starbucks, a maior dos EUA. Achei que seria chá express, mas são bem direitinhos. A loja é lindona, com visual de restaurante sofisticado . Havia umas mesas no fundo e uma mesa coletiva à janela, de frente pra calçada da Madison Avenue, uma beleza. (Aliás, mesas coletivas em Nova York são bem normais, em vários estabelecimentos existem, você senta junto com pessoas que desconhece.) Na Teavana havia um menu com os tipos de bebidas e um outro com pratos e lanches. Não há os sabores dos chás no menu, então você pergunta ou se levanta e vai na parede das latas de chá ver o que tem. Foi o que eu fiz: fui até os chás (não contei, mas a variedade é grande, mais de 60), daí um atendente ficou bem na minha frente perguntando se eu queria sugestões. Não, eu não queria. Escolhi um dos chás que eu consegui ver por cima da cabeça dele (chá branco com sabor de melancia), e umas tipo almôndegas de arroz recheadas de frango. Serviram o chá em alguns minutos (num copo descartável - você só recebe xícara se pedir um bule). Ao contrário do David's Tea (e do Starbucks), eles servem o chá já infuso, pronto para beber, nada de saquinho dentro. Fiquei lá esperando o prato, tomando o chá que nem era tão bom (adstringente e vai ficando enjoativo); a loja estava calma e realmente é um bom lugar. Mas eis que o prato não chegou. Passou mais de meia hora até eu achar que não deveria demorar tanto assim pra preparar, nem que tivesse que cozinhar o frango inteiro. Reclamei (reclamar é algo que não se aprende nas aulas de inglês, realmente, mas foi ok), e o funcionário que me atendeu disse que ele tinha esquecido. Daí é complicado. Fiquei muito magoado e nem comprei chá em folha nem nada mais. E as chicken rice balls eram bem boas e nutritivas, mas servem sem faca, fica difícil você tentando ser chique na Madison Avenue tendo que cortar bolas densas de arroz com um garfo em cima de uma tabuinha. Aqui os atendentes levam o seu pedido na mesa, não ficam chamando teu nome de forma que você não entende. Tem wifi do Google, como nos Starbucks.

http://www.teavana.com
Endereço da loja: 1142 Madison Ave, New York



Casas de chá do próximos post: Argo Tea e Alice's Tea Cup.


3 de maio de 2015

Tomando chá no aeroporto de Guarulhos

Starbucks e sua mesa coletiva
Então temos que ficar esperando no aeroporto por horas e queremos tomar chá, em Guarulhos onde podemos ir? Conheço dois lugares. O primeiro é o Starbucks, no terminal 2. Perdi a oportunidade de falar das experiências com chás no Starbucks em Lisboa, ano passado. Mas ali por Guarulhos a coisa é mais ou menos assim: não importa o tipo de chá que você peça (preto, verde ou chai), eles colocam um saquinho com chá de aparência muito boa (da marca própria deles, Tazo) em um copo descartável com quase meio litro de água fervendo e te dão. Você sai se queimando todo, esperando aquilo esfriar. Se não tiver a presença de espírito de abrir o copo e tirar o chá de lá depois de um tempinho (como é apropriado fazer), vai tomar um chá forte e amargo após esperar uns 15 minutos pra ele chegar numa temperatura tomável.

Copo do Starbucks com seu chá
O outro lugar para tomar chá é no terminal 3, onde fica o café Suplicy. É todo bonitão, com decoração preta e rosa, e com mesinhas agradáveis. Lá no Suplicy eles têm chás da marca Or Tea?, que são muito bons, com folhas inteiras em saquinhos decentes. Mas o serviço foi um tanto ruim quando lá estive. Você pede no caixa e eles vão preparar o chá e te chamam no balcão para pegar (estilo mesmo Starbucks, o que está ok). A atendente do caixa não estava por dentro do processo de pedidos de chá, ficou toda perdida, tive que ajudar e mostrar quais eram os chás e qual eu queria (falta de treinamento, hein). Depois eles me chamaram pra pegar o chá, passando a bandeja por cima de outras coisas; uma parte da água virou no processo, já que pegar uma bandeja com uma xícara cheia de água quente no ar não é assim tão fácil. O fato de virar um pouco de água é algo importante neste caso, já que servem o chá em uma xícara de café, que é bem menor do que os esperados 200ml de uma xícara de chá. Investimento em utensílios apropriados para quê, não é? (Aqui em Porto Alegre temos o Z Café na rua Padre Cacique, que serve os mesmo chás de uma maneira muito melhor - falarei deles em breve)


Daí você vê, têm um ambiente bacana, um nome famosinho, mas não estão muito preocupados com serviço que oferecem. Havia três funcionárias para atender no caixa, preparar os pedidos, entregá-los e cuidar da organização das mesas. Não me parece pouco até, mas falta de treinamento e de investimento no conhecimento dos colaboradores acerca do que eles servem foi visível.

Oferecer algo mais ou menos só porque é no aeroporto é a tendência 2015? Ter um empreendimento que só quer vender, não se importando com o bem servir daquilo que os clientes pedem é praticamente a mesma coisa que qualquer boteco faz (e olha que tem boteco que já evoluiu).

Tomar chá em xícara de café, quem quer?

(Texto baseado nas visitas ao aeroporto em agosto de 2014 e abril de 2015)

9 de abril de 2015

A importância do chá na Índia e os pesticidas que tomamos

Descobri um trabalho fantástico do Greenpeace, que relata todo um estudo com chás produzidos na Índia por grandes indústrias e o resultado alarmante da alta quantidade de veneno (pesticidas perigosos desaprovados para uso em chá) encontrada na maior parte das amostras. Há informações muito relevantes sobre a importância do mundo do chá naquele país, uma parte do texto eu traduzi aqui, já que são dados que me interessam e que são difíceis de achar:

"A indústria do chá na Índia tem mais de 175 anos, com área de cultivo próximo a 1 milhão de hectares. O chá é produzido em plantações nas regiões norte e sul, principalmente nos estados de Assam, West Bengal, Tamil Nadu e Kerala, com as áreas de maior intensidade ao norte somando cerca de 3/4 da produção nacional. Em torno de 26% da terra pertence a pequenos produtores, em plantações de menos de 25 acres.

A Índia é o segundo maior produtor de chá no mundo, só perdendo para a China, e o quarto maior exportador, atrás de Quênia, China e Sri Lanka. As exportações de chá contribuem para o positivo balanço comercial. Além disso, o cultivo de chá é fonte de receita para os governos dos estados cultivadores e para o governo central através dos impostos. O total de exportações durante 2011-12 somaram 214 milhões de quilos.

Em conjunto com a importância para a economia indiana que as exportações representam, a maioria do chá lá produzido é consumido internamente. Do total de 1.2 milhões de toneladas produzidas em 2013, perto de 80% foi para consumo dentro do país.

Estima-se que a indústria do chá emprega mais de um milhão de pessoas diretamente. Muitas dessas são mulheres. Mais de seis milhões de trabalhadores tiram seu sustento indiretamente do chá, através de atividades derivadas, aí incluindo o turismo."




Como não cheguei a ler todo o material fiquei sem saber das informações mais detalhadamente. Mas o resumo está logo no início:

"Uma investigação feita pelo Greenpeace indiano encontrou perigosos pesticidas na maioria das amostras de chás empacotados*  das principais marcas produzidas e consumidas na Índia. Metade das amostras continham pesticidas que são 'desaprovados' para áreas de cultivo de chá ou que excediam o limite recomendado"

Em outros trechos lemos que "Na Índia, as duas principais marcas - Hindustan Unilever Limited, subsidiária da multinacional Unilever, e Tata Global Beverages Limited - dividem mais de 50% do mercado".

"Aproximadamente 94% das amostras de chá continham resíduos detectáveis de pelo menos um dos 34 ingredientes ativos de pesticidas"

"Aproximadamente 60% das amostras continham resíduos de pelo menos um ingrediente ativo de pesticida acima dos Níveis Máximos de Resíduos definidos pela União Europeia, com 37% das amostras excedendo esses limites em mais de 50%."

Quem se interessar e quiser ler o material completo, está disponível em PDF neste link: http://www.greenpeace.org/india/Global/india/image/2014/cocktail/download/TroubleBrewing.pdf

Há muitas informações sobre os tipos de pesticidas, quantidades encontradas, como isso afeta os trabalhadores e a saúde dos consumidores, além de ser um material muito bem escrito e apresentado (se todos apresentassem pesquisas de um jeito interessante assim o mundo seria mais culto).

E daí a gente se pergunta o quanto de veneno consumimos nas coisas que comemos. Se há pesticidas nos chás que produzem na Índia, há veneno também nestes chás que eu tenho aqui na minha casa? E aí na sua casa? E no café? E no tomate? E na couve-flor? Meio que sabemos a resposta, mas tentamos esquecer, não é?



*"package tea", provavelmente são chás em saquinho e os vendidos no varejo em pacotes de folhas soltas


1 de abril de 2015

Tomando chá: Gunpowder

Gunpowder. Assim é conhecido um chá verde chinês que é enrolado em pequenas "bolinhas" desiguais, que juntas se assemelham a grãos de pólvora (gunpowder, em inglês). É um tipo muito conhecido por ser fácil de identificar e ter um sabor característico.

Dá um bebida encorpada, e com um leve sabor defumado. Há informações de que a quantidade de cafeína deste chá é maior que a maioria dos outros verdes (entre 35-40 mg por xícara)*, mas isso é bem relativo. Uma das recomendações é tomá-lo logo de manhã, pra dar uma boa acordada. É bom pra tomar gelado e combina muito com menta, daí ele ser geralmente usado para o Moroccan Mint, que é a mistura desses dois ingredientes pra dar uma bebida ao mesmo tempo vigorosa e refrescante.

Gunpowder da Chá Yê

Um gunpowder de boa qualidade é formado por essas "bolinhas" não tão redondas, pequenas e um tanto lustrosas. O fato de ser enrolado (quando bem enrolado) faz com que o sabor fique guardado nas folhas por mais tempo, também evitando desgaste e a quebra. Nem todo chá enrolado é gunpowder, porém; há outros que também são assim finalizados, embora cada um tenha uma cara diferente.

Originário da província chinesa de Zhejiang, é produzido em massa sem muito controle, daí haver muitos exemplos de gunpowder terríveis por aí (no livro Tea sommelier a autora, Gabriella Lombardi, diz que tal chá é de "qualidade geralmente medíocre") . Eu ao longo dos meses ano passado fui juntando alguns gunpowders em casa. Aqui falo um pouquinho deles.

Whittard - você vê que é uma marca tradicional inglesa, pensa que deve ser um bom chá e compra. Daí você abre a latinha e percebe que mais da metade do chá são folhas quebradas, dobradas e amassadas, as enroladas mesmo são poucas. Dá um chá com menos sabor que os outros, e aparentemente com mais cafeína.

Vis Vitalis - você vê um pacote numa loja de produtos naturais, pensa que é mais uma daquelas porcarias que no Brasil chamam de chá, mas vê que é produzido na China e dá uma chance, achando que vai falar mal em seguida. Daí você prova e acha até muito decente, apesar de as folhas virem com alguns galhos (e até uma pedrinha) e a maioria mal enroladas. O sabor defumado não é muito evidente, mas dá um chá encorpado e honesto. Imagino que ele seja mais facilmente encontrável e tem um preço mais baixo que os outros.

Chá Yê - você vê que é um chá feito pelo mestre Xu Yong Hui, e, apesar de não fazer ideia de quem ele seja, acredita que deve fazer um bom produto. E daí você estava certo: é um ótimo chá, com as folhas realmente enroladas (com alguns galhos no meio, é verdade), sabor defumado característico que fica macio na boca. Depois de infusas as folhas se desenrolam e ficam inteiras, ao contrário dos outros, que desenrolam para mostrar que realmente todas as folhas são quebradas e colhidas sem maior cuidado.

Ali em cima temos uma foto mostrando em detalhe o formato das folhas enroladas do chá da Chá Yê, e aqui embaixo seguem as folhas das outras duas marcas:

Gunpowder da Whittard

Gunpowder da Vis Vitalis
O da Vis Vitalis, portanto, é uma ótima opção para quem quer começar a tomar chá verde com personalidade, que dura bastante, podendo aproveitar os benefícios da bebida sem gastar muito. O da Chá Yê tem todos os pontos positivos e ainda é feito com esmero, artesanalmente, e tem uma riqueza de sabor maior (e provavelmente mais nutrientes, já que tem folhas maiores e mais bem cuidadas).


* Dados sobre cafeína desta página: http://theteaspot.com/gunpowder-green-tea.html


4 de agosto de 2014

Onde servem chá: Tea Connection - São Paulo (2014)

Estive em São Paulo e quis visitar somente as casas de chá que foram mais agradáveis de estar ano passado, o que se resumiu à Tea Connection e ao Bistrô Ó-Chá. Pois nesta primeira o negócio não foi tão bom assim desta vez, no que se refere aos chás. Então este post é mais para não recomendar a Tea Connection, infelizmente.


Já havia falado de alguns problemas notados ano passado, no que se refere ao preparo do chá na mesa, principalmente ao fato de o chá ser colocado no bule após a água (e assim ficar algumas folhas boiando, sem serem infusas). Pois agora é pior. Resolveram diminuir a quantidade de água no bule (antes dava para mais de três xícaras - o que era ruim pra quem está sozinho, aliás), só que o infusor não vai até o fundo, assim agora a água  mal toca nas folhas, só dá uma molhadinha por baixo, as de cima ficando completamente secas e fora d'água.

Ora, para fazer uma INFUSÃO, é necessário que as folhas estejam na água. Óbvio e fácil, mas tive que quase discutir com o atendente para que colocassem mais água no bule: ele ficava insistindo que assim ia ficar ótimo e que ia dar uma xícara e meia de chá (como quem diz "não é pouco, não"); mas minha preocupação não era a quantidade de chá que ia resultar, mas na água saborizada que ia ser, um chá fraco sem gosto.


Ok, colocaram então mais água (desta vez POR CIMA das folhas, meus parabéns!), mas com a função toda o chá ficou uma merda de qualquer forma (mas não tava fraco, pelo menos). O atendente também manifestou a preocupação de a água não ficar em contato com as folhas depois da primeira xícara ser servida (motivo pelo qual devem ter diminuído a água), como eu havia reclamado ano passado, e realmente com mais água no bule a segunda xícara fica amarga pois a infusão continua até mais chá ser servido.

Bom, se você tem uma casa de chá e não consegue achar um jeito decente de fazer um chá bom, algo está errado. Do jeito que está, está ruim. O ambiente é agradável, as comidas são interessantes, mas o "tea" não está com muita "connection".



Ah, e continuam com aquelas informações erradas na cardápio, identificando oolong como chá vermelho (why, god, why?), na mesma categoria do pu-erh. Será que é pra poupar espaço no cardápio ou não sabem a diferença?


Parece o típico lugar que entra na onda de algo hype só pra ser cool num bairro elegante, mas perde a mão no essencial. É uma rede de lojas de origem argentina, a propósito; imaginaria-se que algum know how de chás deveriam ter, e não apenas seriam um restaurante/lancheria/bistrô onde servem chás à la loca.

Claro que o público que vai está se lixando pro jeito tosco que servem o chá, qualquer coisa vão achar bom e bonitinho ("ai, tem uma ampulheta, então é gourmet"), ou, mais certo, não vão achar bom mas vão pensar que é assim mesmo, "chá é assim sem graça". E não estou dizendo que as pessoas são estúpidas, mas geralmente não sabem o que é um bom chá nem como se faz apropriadamente - uma boa casa de chá é para isso, por isso tem obrigação de servir da melhor forma.

Uns dias depois fui em um café na Consolação que servia chás da Tea Connection (outro post virá para ele). E eis que a forma deles servirem é bem mais efetiva e resulta melhor: te trazem uma xícara com água quente, uma ampulheta e um infusor tipo bola com o chá dentro: você faz a infusão e tira depois que ficar pronto. Mais fácil e melhor. E, claro, há sempre a opção básica de servir o chá já pronto - se você tiver quem faça bem feito e bem cuidado, claro.

Tea Connection
Onde: Alameda Lorena, 1271 - Jardim Paulista - São Paulo
http://www.teaconnection.com.br
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